


| E agora Doutor ? |
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| Escrito por Henrique Carneiro | |||
| Seg, 21 de Novembro de 2011 14:17 | |||
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Quem nunca se deparou com a situação onde ao final da anamnese vem a pergunta: E aí, qual o diagnóstico deste paciente? O paciente não se encaixa em nenhuma classificação existente. Nestas horas não é raro surgir novas entidades tais como cefaleia atípica, cefaleia mista ou até mesmo cefaleia a esclarecer! Pois bem, sabemos que a prática clínica nem sempre está retratada com as famosas “figuras de livro” e é aí que entra a experiência e o Pulo do Gato. • Caso Clínico: Paciente feminina, 38 anos de idade, previamente hígida e sem histórico familiar relevante. Queixava-se de cefaleia contínua estritamente unilateral direita há sete anos. Não sabe o dia exato em que a dor começou e acha que o início foi gradativo e intermitente após o nascimento do seu segundo filho. Admite períodos de exacerbação cerca de três vezes por semana com até um dia de duração que vêm acompanhados de fotofobia, fonofobia e náuseas. Nega vômitos e sinais disautonômicos inclusive durante a exacerbação dos sintomas. Faz uso de AINE sempre que a dor piora com alívio discreto (média de 12 comprimidos/mês). Já tentou tratamento preventivo com uso em tempo e doses adequadas de: Topiramato / Divalproato / Amitriptilina / Imipramina / Atenolol. Já havia consultado vários profissionais dentre eles um clínico, um ginecologista e dois neurologistas exclusivamente por causa da sua dor. Por fim fora encaminhada a um psiquiatra e estava em uso de Fluoxetina para possível transtorno do humor (quadro depressivo leve). Neste período realizou duas tomografias de crânio (com e sem contraste) e uma ressonância nuclear magnética de encéfalo sem alterações. O exame clínico e neurológico era normal, sendo que também não havia sinais de disfunção têmporo-mandibular bem como a palpação dos nervos occipitais maior e menor estava indolor e sem irradiações. Conduta: A paciente fora aconselhada a utilizar indometacina que na dose de 150mg/dia levou a ausência total de dor, melhora esta que fora mantida. Após cerca de dois anos de uso a paciente interrompeu por queixas gástricas com retorno da dor sendo reiniciada a medicação novamente com sucesso. Clique aqui e veja o vídeo (será exibido em outra janela) Contexto: Durante nossas horas de descanso, nós neurologistas e apaixonados por cefaleia conversamos sobre vários temas, desde que, claro, sejam relacionados com dor de cabeça. O vídeo foi gravado em viagem de férias onde a garçonete portuguesa de Lisboa, ao ouvir tanto falar sobre o tema trouxe sua amiga, também lusitana, para quem sabe, obter alguma orientação para acabar o seu sofrimento. Discussão: Os diagnósticos diferenciais das dores de cabeça unilaterais de longa duração incluem a hemicrania contínua (HC) , enxaqueca crônica unilateral, cefaleia persistente diária de início súbito (provavelmente em grande parte seu subtipo migranosa) [1] e as cefaleias trigêmino-disautonômicas quando elas ocorrem com dor de fundo como em alguns casos de hemicrania paroxística (HP). A HC pode ser diferenciada da enxaqueca crônica e da cefaleia persistente diária de início súbito pela resposta positiva à indometacina. O diagnóstico diferencial entre HC e hemicrania paroxística com dor interictal pode ser difícil e, certamente, um diário de dor é muito útil durante os exames de HC. Tipicamente a HC tem sinais disautonômicos menos proeminentes que são mais característicos da hemicrania paroxística, e a dor basal é mais significativa na forma contínua. A duração e frequência dos períodos de exacerbação também é um fator a ser considerado visto que na HC estes podem durar várias horas e são menos frequentes que nas HP onde ocorrem vários ataques por dia que duram de poucos minutos a uma hora. [2] O caso em questão preenche quase todos os critérios para hemicrania contínua da segunda classificação da IHS [3], exceto pela ausência de sinais disautonômicos mesmo durante a exacerbação. Vários autores demonstram que estes sintomas nem sempre estão presentes [2, 4, 5] bem como a intensidade da dor pode ser intensa e não moderada [2]. Pode-se questionar também o início da dor que parece que fora de forma intermitente para posteriormente se instalar a dor contínua. Em estudo do Dr. Bordini em 2001 [6] mesmo antes da segunda classificação da IHS já havia sido feito referência a este tipo de apresentação. Em revisão posterior em um total de 97 casos foram encontrados cerca de 15% dos casos apresentando a forma remitente e 85% a apresentam a forma contínua sendo que destes 36% evoluíram da forma remitente para a apresentação diária. A hemicrania contínua vem sendo estudada como entidade distinta e com achados em exames de imagem neurofuncional com características que sobrepõem as cefaleias trigêmino-disautonômicas e as migrâneas [7]. São em média 4,9 anos do início dos sintomas ao diagnóstico correto, e uma média de 20 consultas médicas devido a queixa única de cefaleia [9]. Talvez pela presença de critérios diagnósticos muito excludentes esta entidade seja subdiagnosticada [2,4,9] e não sabemos a real prevalência desta patologia o que faz com que o número de sofredores potencialmente tratáveis seja alto. Provavelmente na próxima revisão da classificação internacional de cefaleia novos critérios sejam propostos para esta entidade. Pulo do Gato: “Todo paciente com cefaleia unilateral restrita deve ser submetido ao teste terapêutico precoce com indometacina” [2, 4, 8]. Infelizmente não dispomos de indometacina injetável no Brasil e assim temos que lançar mão da droga em comprimidos de 25 mg. A dose correta para avaliar a resposta varia entre 75 e 300 mg [2, 4, 5, 9] com média de 150 mg divididos em três tomadas. É importante lembrar-se de associar um protetor gástrico devido a incidência de efeitos colaterais desta droga. Após resposta positiva pode-se reduzir a dose em cerca de 60% com bons efeitos e tolerabilidade [10]. Referências:
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| Última atualização em Seg, 21 de Novembro de 2011 22:54 |
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